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Monthly Archives: março 2010


domingo_ramos_palma Sempre quando os feriados derivados da história de Jesus chegam tenho o costume de ler as notícias a respeito. Já deixei claro aqui em outros posts que tenho uma enorme curiosidade por essa personagem.

Como um dos objetivos deste blog é estimular o pensamento e diminuir nossa distância da única explicação possível para os fatos, sempre me vejo na obrigação de, baseado na história, corrigir informações veiculadas de forma incorreta.

Desta vez foi o portal G1 de notícias que pecou numa informação histórica sobre o Domingo de Ramos, feriado que celebra a última entrada de Jesus em Jerusalém em uma de suas festas mais famosas: a páscoa judaica. O portal diz o seguinte:

Em seguida, os fiéis saíram em procissão pelas ruas históricas da cidade. A caminhada representa a entrada de Jesus Cristo em Jerusalém. Ele foi aclamado pelos católicos como rei e recebido com ramos, que simbolizam a alegria.

Bem, Jesus ainda não era “Cristo” quando entrou pela última vez com vida em Jerusalém para a celebração da páscoa judaica. Ele somente seria “promovido” a “Cristo” muitos anos depois, com a chamada “conversão” de Paulo de Tarso, fato que seria fundamental para o surgimento do cristianismo.

Ao entrar em Jerusalém para sua última páscoa, Jesus jamais poderia ter sido aclamado pelos católicos. Isso por uma simples razão: os católicos ainda não existiam. A igreja católica surgiria muitos anos depois da morte de Jesus, como consequência do embate entre uma forma de religião criada pelos discípulos de Jerusalém e o cristianismo primitivo, criado por Paulo de Tarso.

Ao ter entrado pela última vez com vida em Jerusalém, Jesus não teria sido aclamado rei de coisa alguma. Quase ninguém o conhecia de fato entre a população presente em Jerusalém para a páscoa judaica. Jesus teria decidido entrar na cidade montando um burro provavelmente como mais uma forma de ironizar o poder vigente e o mais provável é que somente as poucas pessoas que o acompanhavam naquele momento, e que sabiam de suas intenções, é que teriam gritado em voz alta chamando a atenção dos demais.

Segue o link do Portal G1 de notícias com a notícia completa: http://g1.globo.com/Noticias/Brasil/0,,MUL1548269-5598,00-FIEIS+CELEBRAM+DOMINGO+DE+RAMOS+PELO+PAIS.html

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Não é de hoje que os relatos de abuso sexual com envolvimento da igreja católica deixaram de ser novidade.

Recentemente Bento XVI está sendo acusado pela imprensa alemã de ter permitido que um padre acusado de pedofilia continuasse à frente do trabalho pastoral em Munique.

Diablo Bem, segundo Gabriele Amorth, exorcista-chefe da igreja católica, nada disso parece ser culpa da igreja ou do Vaticano. Em entrevista a um jornal italiano, Gabriele disse que o “Diabo” está no Vaticano. Isso explicaria todos os casos de pedofilia na igreja, além de explicar também o recente ataque ao Papa na noite de natal, assim como também esclarecer de forma definitiva que Adolf Hitler e os nazistas teriam sido possuídos pelo demônio.

Enfim, segundo o exorcista-chefe da igreja-católica, os escândalos de abuso sexual seriam a prova definitiva da influência maléfica do diabo na Santa Sé.

Apesar da tentação, resolvi não expor aqui o que penso sobre o assunto. Ao invés disso concluí ser mais importante esclarecer historicamente, a qualquer leitor interessado ou curioso, um pouco sobre a criação dessa personagem conhecida como “Diabo”, de forma muito resumida, por parte da mesma instituição que hoje o exorciza mundo a fora…

Originalmente, “satã” (com “s” minúsculo) era uma função.

Mais adiante, já com o sentido devidamente alterado ou manipulado, “Satã” (com “S” maiúsculo) passa a ser uma entidade.

O termo “satã”, que em hebreu significa originalmente “acusador”, e que também passou a ser aceito mais tarde como “adversário”, aparece inúmeras vezes no antigo testamento.

No contexto original do antigo testamento, jamais significou algo de natureza maligna, até mesmo porque, para os judeus, Deus ou YAVEH sempre representou o poder total, sem contestação de qualquer outra força antagônica de natureza maligna.

É fundamental esclarecer que, em seu contexto original, no antigo testamento, o satã, ou o acusador, desempenhava claramente o papel de “promotor”. Em nenhum momento o acusador encarnaria o mal, conforme o texto a seguir:

“O profeta Zacarias viu Josué, o sumo sacerdote de pé diante do Anjo do Senhor e o satã estava à sua direita para acusá-lo”.

Numa outra passagem, no Livro de Jó, os filhos de Deus comparecem à audiência do Senhor, tendo o satã entre eles. O acusador, ou o satã, relata ao Senhor que percorre a Terra para observar os homens, anotar os maus comportamentos e prestar conta disso a Ele, o Senhor. O satã chega a demonstrar ceticismo quando Deus elogia as virtudes de Jó e o Criador o desafia (desafia o acusador, o satã) a impor infortúnios a Jó a fim de comprovar que este se manterá íntegro e correto. Nesse caso pode-se verificar que o satã não é de nenhuma forma responsável pelas ações de Jó. E, ainda como um bom promotor, chega a afirmar que a virtude de Jó é tributária das graças que este teria recebido de Deus.

Mas o que houve então? Quando satã com “s” minúsculo deixou de ser uma função, um cargo, para se tornar um nome próprio com “S” maiúsculo? Quando o “acusador”, o “promotor”, passou a ser o “adversário” de Deus?

Isso ocorreu num texto das “Crônicas” que, retomando uma passagem do Livro de Samuel (“A cólera do Senhor se inflamou contra Israel e incitou Davi a organizar um recenseamento”), o traduziu da seguinte forma: “Satã se levantou contra Israel e incitou Davi a fazer um recenseamento”.

Simples não? O autor das “Crônicas” – séculos IV e III a.C. – julgou ser impossível atribuir a Deus uma ação “má”. Como consequência desse “julgamento” do tradutor, acabou por personificar todas as forças do mal, hostis e antagônicas a Deus, nessa nova personagem por ele criada: Satã.

Com isso, na literatura inter-testamental, composta pelos textos redigidos entre o Antigo e o Novo Testamento, Satã passa a ocupar um lugar crescentemente importante. Passa a ser apresentado como “anjo caído”, expulso do Jardim do Éden, e também é associado à serpente que teria tentado Adão e Eva.

O documento “A Regra da Comunidade”, um dos primeiros manuscritos de Qumram descobertos em 1947, explica que Deus teria criado dois espíritos, o da Luz e o das Trevas. Nota-se já a existência da “dualidade”, inexistente antes nas bases hebraicas.

Já no Novo Testamento, seus autores evocam Satã com frequência através de uma outra tradução, desta vez em grego, “diablos”, que vem a significar “divisor”. São inúmeros as passagens e os exemplos disso, sendo que talvez o mais famoso seja a passagem onde Satã tenta Jesus no deserto, sendo Satã o “adversário” do Reino de Deus.

O Apocalipse já passa a retratar uma luta entre o Diabo (já conhecido como Satã) e a igreja. O autor do Apocalipse, atribuído a João, intensificar ainda mais a personificação do mal em Satã atribuindo-lhe outros vários nomes, tais como: Demônio, Serpente Primitiva, Anjo do Abismo, “Abbadon” ou “Appollyon” (“Destruidor” em hebreu e em grego), e “A Besta”.

Nessa fase Satã já é conhecido oficialmente como inimigo de Deus por excelência, mas ainda sem ser “igual” de Deus.

Foi somente na Idade Média que Satã passou a ocupar um lugar de destaque no cristianismo:

De simples adversário mais fraco tornou-se força igual e oposta a Deus. O “mal” foi promovido e ganhou novos nomes: Lúcifer, Belzebu e Mefistóteles. É transformado no soberano do inferno, onde passa também a comandar grandes exércitos de demônios (seus clones). Ganha também um aspecto monstruoso, com o corpo formado por parte de feras malignas – reais (serpente e morcego) e imaginárias (dragão). Mas não é tudo. Não contente ainda, a igreja também passou a lhe oferecer a característica e capacidade de assumir todas as aparências necessárias para tentar os mortais.

Hoje em dia, a própria igreja se glorifica de ter um “exorcista-chefe” e de ter exorcizado mais de 70.000 pessoas de uma personagem que ela mesmo criou. Como isso é possível? Por incrível que pareça é simples: basta continuarmos separando a fé da razão, taxando a razão como nossa inimiga e a fé como nossa amiga salvadora e, com isso, eliminando gradualmente o hábito de pensar e pesquisar as origens de tudo aquilo que acreditamos hoje em dia.

Você acredita no Diabo? Bem feito. A culpa é toda sua. Quem mandou não pesquisar?

Roni Adame