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TiriricaComo não escrever mais um pouco sobre política? Se a proposta deste blog é registrar algum tipo de reflexão, acho razoável escrever um pouco sobre os resultados das eleições de hoje, pois os mesmos podem nos mostrar algumas coisas sobre nós mesmos.

Se por um lado a derrota de Lula, não elegendo sua candidata logo no primeiro turno, mostra que as pessoas parecem estar pensando mais, por outro lado, a eleição de Tiririca e Garotinho como os deputados federais mais votados do Brasil mostram que as pessoas deixaram de fato de pensar.

O que acontece então? Difícil saber e cedo para arriscar um palpite. Mas creio que posso fazer algumas observações.

Ao não eleger Dilma logo no primeiro turno, Lula sofreu um duro e pesado golpe. De fato é assim que ele preferiu não aparecer e assim não vincular sua imagem com esse fato. Lula hoje pensa que é Deus, ou alguém muito próximo a “Ele”. Ele mesmo se auto-proclamou “O cara do Cara” (este segundo “Cara” seria “Ele”). Sua alta popularidade fez esse e outros estragos com Lula e foi muito interessante, até mesmo aliviante, constatar que sua visão se si mesmo está muito além da realidade. Enfim, diferente do que ele pensa, sua palavra não é uma ordem.

Mercadante foi outro golpe duro no trabalho de cabo eleitoral de Lula. A certezas de Lula não são as certezas de todos. Mais uma vez, um alívio.

Durante o horário de propaganda eleitoral fui muito surreal assistir Mercadante dizer que os deputados e senadores do PT não falavam uma coisa e faziam outra. Oras, ele mesmo tinha feito isso recentemente ao ter pronunciado em cadeia nacional que, frente à postura de Lula e do PT a respeito do escândalo Sarney, ele renunciaria ao Senado e ao PT e, após uma conversa com Lula, voltou à imprensa e mudou de idéia. Bem, pelo visto, nem todos esquecem.

Ainda para complementar a frustração com Mercadante, Lula ainda teve o desprazer de ver Aloysio Nunes como o senador mais votado para São Paulo. Mas nem tudo é decepção para ele uma vez tendo elegido Marta como segunda senadora.

É muito provável que Dilma acabe superando Serra no segundo turno. A possibilidade é bem grande. Mas o que quero destacar aqui é que alta popularidade não atribui a ninguém a capacidade de prever e de concretizar a realidade como se deseja. Isso seria apenas megalomania, típica de um cara que se acha “O cara do Cara”.

Mas o que leva Tiririca a ser o deputado federal mais votado do país? Será que o exemplo de um toneiro mecânico ter chegado à presidência está sendo levado ao extremo pela população e passaram então a acreditar que quanto mais intensamente despreparado estiver o candidato melhor será para o povo?

Pude assistir a um analista político questionando a si mesmo se esses votos seriam de protesto ou se ainda teriam uma intenção mais inteligente por trás. Mas infelizmente essa é uma possibilidade muito remota. A possibilidade com mais base na realidade é que seriam mesmo votos “burros”, de eleitores completamente despreparados, muitíssimos mal informados e sem qualquer noção temporal de causa e efeito, ação e reação, fato e consequência. “Pior que tá não fica”?. Ficou. E muito.

Além do congresso passar a conviver com alguém que assume publicamente que não tem a mínima idéia do que faz ou deveria fazer um deputado, com mais de um 1.300.000 votos, Tiririca acaba levando junto com ele para o congresso outros vários deputados que nem chegaram a aparecer na propaganda política, que também não possuem qualquer conhecimento administrativo e que, inclusive, chegaram a pertencer ao esquema do mensalão do PT. Será que os eleitores de Tiririca também tinham essa noção?

Seria Tiririca a constatação de que passou a ser “legal” contratarmos, para um determinado cargo ou função, justamente a pessoa que diz que não tem a mínima idéia de como cumprir tal função? Você faria isso em sua empresa ou negócio? E ainda levaria, de brinde, outros vários com o mesmo perfil e ainda criminosos? Talvez você não cometeria um ato de ignorância e burrice dessa magnitude. Mas mais de 1.300.000 (um milhão e trezentos mil) brasileiros o fizeram. Isso mostra alguma coisa sobre nós? Com certeza.

Mas isso é tudo? Seria esse o único sinal de que tem algo errado conosco? Antes fosse. Mas e a eleição de Antony Garotinho como deputado federal? Trata-se do segundo candidato mais votado para essa função. E ainda tem gente que diz que o crime não compensa?

Garotinho foi preso e está respondendo a dois processos por crimes como formação de quadrilha, desvio de dinheiro público, rombo financeiro após seu governo no Rio de Janeiro, uso abusivo e irregular da força policial também no Rio de Janeiro e diversas outras irregularidades. De forma que chega a me assustar, mesmo com a polêmica (deveria ser polêmica?) questão da “ficha limpa”, Garotinho conseguiu uma liminar de um juiz que deu a ele o direito de concorrer à eleição para deputado federal. E de forma que me assusta mais ainda, foi o segundo deputado mais votado, perdendo apenas para o palhaço. Como explicar essa preferência do eleitorado por esse perfil?

É claro que essas poucas informações, aliadas ao cenário político como um todo, e a todas as questões que surgem dessa realidade ampla e obscura, é assunto para vários livros e não para um simples post. Mas quero concluir opinando que os assuntos abordados neste post mostram problemas gravíssimos nas duas pontas: problemas com o eleitor e com os candidatos. Mas um problema não seria apenas consequência do outro? Ambos não se retroalimentam?

Vejam, o que é preciso para trabalhar numa empresa do governo? O que eu preciso fazer para vir a trabalhar em empresas como o Banco do Brasil ou a Caixa Econômica Federal? Oras, preciso aguardar a publicação de abertura de vagas e me inscrever para um concurso público? Ou seja, para que eu consiga a vaga pretendida, para ser um funcionário público, eu preciso provar, através de várias provas, com várias matérias e modalidades, que estou bem preparado para cumprir tal função. E não basta eu estar preparado, tenho que ser um dos mais bem preparados. Mas isso bastaria? Claro que não.

Eu conseguiria a vaga, mesmo sendo um expert, tendo ficha suja, ou melhor, tendo antecedentes criminais? Ou eu conseguiria a vaga tendo o nome sujo no SPC ou no SERASA? Eu seria considerado “confiável”? Enfim, como acham que empresas como o Banco do Brasil ou a Caixa Econômica chegaram aos patamares atuais se não existissem tais critérios para seus funcionários públicos?

Mas e quanto aos funcionários das câmaras municipais, do governo estadual, do congresso e senado federais e do planalto? Não são funcionários públicos também? E por que nesse caso podem entrar analfabetos e criminosos para trabalhar? Qual seria a diferença que justificaria isso?

Até quando será assim? Quando as candidaturas a cargos políticos (funcionários públicos como do BB e da Caixa) serão aprovadas apenas para pessoas sem antecedentes criminais? Quando tais candidaturas, após terem passado pela peneira policial, passarão a ter suas aprovações sujeitas a provas e exames do mesmo nível aplicado hoje pelo Banco do Brasil e pela Caixa Econômica? Por que não se investe nesse sentido?

Será que esse tipo de mentalidade e atitude então exigiriam uma mudança agressiva na qualidade da educação no Brasil como um todo? E será que esse investimento maciço na educação nacional, com o passar do tempo, não eliminaria totalmente a existência de um perfil de eleitor que hoje vota no Tiririca e no Garotinho? Será que um investimento maciço na educação, ao longo do tempo, não acabaria substituindo uma realidade precária existente hoje nas “duas pontas” (eleitor e candidato) por uma realidade política-educacional amplamente mais madura e responsável?

Bem, as respostas a tais questionamentos são puramente óbvias. E, para nossos legisladores, investir na qualidade da educação ao longo do tempo é o mesmo que admitir o fato de perder a “boquinha”. Uma decisão muito difícil para eles. Tanto é que nunca o fizeram. Enquanto isso vamos assistindo a continuidade do declínio, pois pior do que “tá” fica sim.

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