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Tag Archives: Mineiros do Chile


CHILE-MINAO mundo todo torceu para o bem-sucedido resgate aos que ficaram conhecidos como “Los Mineros de Chile”. Sem dúvida um momento histórico. Mas o que esse momento nos diz?

Primeiramente parabéns ao presidente chileno, Sr. Sebastian Piñera, pelo modo com que conduziu a operação de resgate. Como um empresário muito bem sucedido, soube lidar com o fato de modo a prever suas consequências a curto, médio e longo prazos.

O presidente sabia que sua popularidade não estava nada bem. Sabia também que a empresa mineradora, a San Esteban, estava praticamente falida, com vários de seus 300 funcionários sem receber havia tempos e sabia que o mundo estava de olho nos mineiros soterrados.

Baixa popularidade? Talvez os mineiros soterrados fossem sua melhor chance de reverter esse quadro durante todo seu governo. Mas, para isso, não poderiam haver falhas. Tudo teria quer ser perfeito, independente de quanto custasse.

A quem recorrer então? À própria empresa mineradora? Nem pensar. Ela não teve recursos nem mesmo para escavar outras entradas e saídas para a mina de cobre onde os mineiros estavam trabalhando quando foram soterrados – uma mina, seja ela de cobrem de ouro ou de gás, não poderia jamais ter apenas uma única entrada e uma única saída.

O custo total da operação de resgate chegou próximo aos 30 milhões de dólares. Se dependesse da San Esteban os mineiros já estavam mortos. Piñera sabia disso.

O presidente teria que recorrer então ao histórico desse tipo de desastre. E o mundo estava cheio deles. Ao contrário do que muitos pensam, a tecnologia adotada para salvar os mineiros não era nenhuma novidade e já havia sido usada em outras partes do mundo.

NASA_0Mas quem dominava a tecnologia? Quem possuía a experiência de tentar resolver grandes problemas ocorridos em espaços físicos muito pequenos? Quem assistiu Armagedon e Apollo XIII sabe a resposta: NASA.

A agora famosa cápsula usada no resgate, a Fênix II, é resultado de um projeto do engenheiro da NASA Clinton Cragg. A NASA também disponibilizou para o Chile uma equipe de 20 pessoas, dentre eles médicos, psicólogos e nutricionistas.

Milagre? Apesar dos mineiros, e de uma grande parte dos chilenos, acreditarem fervorosamente que sim, a resposta é não. Tratou-se de uma aliança estratégica entre a rapidez administrativa e política do presidente Piñera e o conhecimento e a experiência da equipe mais preparada para uma situação como essa.

O que poderíamos esperar dos mineiros? Que eles entendessem a importância de uma equipe como a da NASA? Seria esperar um pouco demais de uma cultura extremamente hierarquizada, muito mais do que no Brasil, onde o papel do pai é venerado, e ao mesmo tempo intensamente religiosa no que concerne ao cristianismo, mais um presentinho da colonização.

mineiros-milagresPara muitos chilenos, o fato de ser 33 o número de chilenos soterrados, ligado ao dogma cristão de ser 33 a idade em que Jesus teria morrido – apesar dos cristãos propositalmente ignorarem o fato, sabe-se que Jesus não tinha 33 anos quando foi crucificado – , foi mais que suficiente para trazer à tona uma religiosidade acima da considerada normal.

Mas voltando à realidade da qual muitos tentam usar a religião para fugir, o fato é que não se tratam de 33 mineiros. A empresa San Esteban possui cerca de 300 mineiros trabalhando em situações precárias e muito semelhantes às dos mineiros resgatados. O descaso com esse tipo de atividade estava presente no Chile quando tudo aconteceu. E não se trata de algo recente.

Logo no dia seguinte ao resgate um mineiro morreu soterrado em Val Paraíso. Esse homem não teve nem sequer 1% da atenção que os 33 tiveram. Por que? Por acaso as péssimas condições de trabalho e o descaso com a segurança da mineração foram resolvidos no Chile?

Bem, o Chile fez o dever de casa:

  • Seus novos heróis todos salvos. Com todas as devidas “homenagens” (1 IPod para cara um? Ora Sr. Jobs, não serve nem pra usar como telefone caso algum deles fique soterrado novamente);
  • Piñera reverteu extremamente seu problema de popularidade;
  • Chile deu o exemplo ao resto do mundo.

 

Basta saber o que acontecerá com os heróis quando a fama acabar rapidamente e tiverem que voltar ao trabalho…

Mas e quanto à atividade de mineração no resto do mundo?

Infelizmente a situação piora. Sem entrar em detalhes, vale a pena mencionar a realidade chinesa. A propósito, fica fácil de entender porque a China foi a única grande nação a não transmitir a operação de resgate chilena (em conjunto com os EUA é claro).

Enquanto escrevo este post a China anuncia que são escassas as chances de encontrar 11 mineiros presos numa mina de carvão na província central de Henan. Como se não bastasse, ano passado foram 2.631 mineiros mortos em toda a China. Como já conhecemos a fama chinesa, fica fácil concluir que esse número não seria o real.

O que fazer então?

Minas_JohannesburgCaso as nações e as empresas de mineração quisessem utilizar o caso recente dos “33 heróis do Chile” como um marco para uma mudança de conscientização desse segmento de trabalho, existe ao menos um referencial a ser seguido: trata-se de uma mina de ouro subterrânea, localizada na área de Witwatersrand, em Johannesburg, onde os trabalhadores trabalham em total segurança em profundidades de até 4 quilômetros, perfurando novos túneis até aproximadamente 8 quilômetros (para saber mais, clique aqui).

Como em vários outros segmentos, falta apenas vontade administrativa, política e financeira para investir em segurança, em proteção da vida. Mas esse “apenas” é mais complexo do que aparenta. Infelizmente a proteção da vida, não apenas a vida humana, é uma das consequências de uma série de processos e valores que ainda não conhecemos na teoria e não vivenciamos na prática. É mais um item pertencente à nossa continuidade incerta.