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História e Religião

Mais um 25 de Dezembro. Devido à minha imensa curiosidade e interesse a respeito de Jesus – mais especificamente o Jesus histórico – me sinto quase na obrigação de divulgar alguns fatos sobre esta data para que outros poucos curiosos também possam encontrar mais facilmente informações a respeito.

Antes de qualquer outra informação, penso ser conveniente chamar a atenção para a necessidade de separar o Jesus histórico do religioso. É claro que essa questão é monstruosamente complexa. Mas me refiro aqui apenas ao fato muito comum das pessoas confundirem a informação religiosa como sendo também a histórica.

Isso se deve principalmente ao simples fato de existir apenas uma via de informação sobre Jesus para o púbico. Seja nas igrejas, escolas ou núcleos familiares, a única informação transmitida ao público é a informação religiosa. As informações históricas simplesmente não são transmitidas. Com isso, a informação religiosa, a qual não tem qualquer vínculo com a informação histórica, é transmitida como sendo a única versão dos fatos.

Historicamente, pouquíssimo se sabe de fato sobre Jesus. E não é diferente com a igreja – me refiro a todas as igrejas, principalmente, católica e protestante. Especificamente sobre o natal, a igreja não sabe de fato quando Jesus nasceu. Mas teve que adotar uma data, de forma estratégica e conveniente, para instruir seus fiéis e instituir as devidas festas e rituais. Afinal, nunca foi nada interessante para a igreja dizer ao seu público que desconhece algo, principalmente sobre seu principal alicerce: Jesus.

Mitra e o Solstício de Inverno

De fato, o 25 de Dezembro já é comemorado muito antes do nascimento de Jesus, o qual, segundo dados históricos, tem mais chances de ter ocorrido de fato no entre os anos 7 e 6 a.C. O que conhecemos hoje como sendo o “Natal” já ocorria há aproximadamente 7 mil anos. Trata-se da homenagem de “nascimento” do deus persa Mitra, que, essencialmente, representava a luz. Como a festa ao deus Mitra chegou aos dias de hoje como sendo o nascimento de Jesus? Vamos à sequência de eventos.

A história do 25 de Dezembro é tão antiga quanto a civilização e tem um motivo bem prático: celebrar o solstício de inverno, a noite mais longa do ano no hemisfério norte, que acontece no final de dezembro. Dessa madrugada em diante, o sol fica cada vez mais tempo no céu, até o auge do verão. É o ponto de virada das trevas para luz: o “renascimento” do Sol. Num tempo em que o homem deixava de ser um caçador errante e começava a dominar a agricultura, a volta dos dias mais longos significava a certeza de colheitas no ano seguinte.

Na Mesopotâmia, a celebração durava 12 dias. Já os gregos aproveitavam o solstício para cultuar Dionísio, o deus do vinho e da vida mansa, enquanto os egípcios relembravam a passagem do deus Osíris para o mundo dos mortos. Na China, as homenagens eram (e ainda são) para o símbolo do yin-yang, que representa a harmonia da natureza. Até povos antigos da Grã-Bretanha, mais primitivos que seus contemporâneos do Oriente, comemoravam: a festa era em volta de Stonehenge, monumento que começou a ser erguido em 3100 a.C. para marcar a trajetória do Sol ao longo do ano.

A comemoração em Roma, então, era só mais um reflexo de tudo isso. Cultuar Mitra, o deus da luz, no 25 de dezembro era nada mais do que festejar o velho solstício de inverno – pelo calendário atual, diferente daquele dos romanos, o fenômeno na verdade acontece no dia 20 ou 21, dependendo do ano. Seja como for, esse culto é o que daria origem ao nosso Natal. Ele chegou à Europa lá pelo século 4 a.C., quando Alexandre, o Grande, conquistou o Oriente Médio. Centenas de anos depois, soldados romanos viraram devotos da divindade. E ela foi parar no centro do Império.

Mitra, então, ganhou uma celebração exclusiva: o Festival do Sol Invicto. Esse evento passou a fechar outra farra dedicada ao solstício. Era a Saturnália, que durava uma semana e servia para homenagear Saturno, senhor da agricultura. O ponto inicial dessa comemoração eram os sacrifícios a Mitra. Enquanto isso, dentro das casas, todos se felicitavam, comiam e trocavam presentes. Os mais animados se entregavam a orgias – mas isso os romanos faziam o tempo todo.

Bom, enquanto isso, uma religião nanica que não dava bola para essas coisas crescia em Roma: o cristianismo. Mas a igreja ainda não comemorava oficialmente o Natal – entre outros motivos, por não saber o dia em que Jesus havia nascido. Embora o período tivesse sido mais ou menos calculado (a data seria entre 7 e 6 a.C.), em nenhum momento, nos primeiros 200 anos do cristianismo, o dia é mencionado.

Mas a igreja relutou em celebrar o nascimento de Jesus. Naquela época, era comum celebrar a morte de pessoas importantes e não o nascimento. A igreja sempre fez questão de lembrar o sacrifício do filho de Deus. Solenizar o aniversário de Jesus com festa, da mesma forma como se honrava um faraó ou Herodes, era indecência para os puritanos. É curioso observar que, mesmo depois de aprovada, várias vezes se cogitou terminar com a festa pelo nascimento de Jesus. Algumas reformas protestantes, a partir do século 15, conseguiram fechar igrejas que insistiam na celebração do Natal.

06 de Janeiro

A especulação de fato sobre o nascimento de Jesus e o natal, por parte da igreja, só começou por volta dos séculos 3 e 4, em resposta aos festejos promovidos pelos romanos com orgias e banquetes em reverência a divindades pagãs.

Nessa época, pelo menos oito datas diferentes foram propostas para o nascimento de Jesus. Duas datas, entretanto, prevaleceram e são usadas até hoje. Primeiro, veio o 6 de janeiro, uma comemoração feita no Oriente para o suposto dia em que Jesus fora batizado. A igreja primitiva, principalmente no Oriente, festejava no dia 6 de janeiro a Epifania do Filho de Deus, ou seja, a aparição de Cristo na Terra e sua revelação aos homens.

25 de Dezembro

Como os cristãos fizeram com muitas outras datas, aproveitando antigas cerimônias pagãs e as recobrindo com sua liturgia, a celebração de 6 de janeiro tomou o lugar de grandes festas em homenagem ao deus egípcio Osíris e ao grego Dionísio. No século IV, os cristãos celebravam na noite de 5 para 6 de janeiro o nascimento de Cristo e, durante o dia 6, seu batismo.

Mas os fiéis de Roma queriam arranjar algo para fazer frente às comemorações pelo solstício. E colocar uma celebração cristã bem nessa época viria a calhar – principalmente para os chefes da Igreja, que teriam mais facilidade em amealhar novos fiéis. Aí, em 221 d.C., o historiador cristão Sextus Julius Africanus teve a sacada: cravou o aniversário de Jesus no dia 25 de dezembro, nascimento de Mitra. A Igreja aceitou a proposta e, a partir do século 4, quando o cristianismo virou a religião oficial do Império, o Festival do Sol Invicto começou a mudar de homenageado.

Associado ao deus-sol, Jesus assumiu a forma da luz que traria a salvação para a humanidade. O 6 de janeiro ficou, então, reservado ao dia em que Cristo teria aparecido aos três “reis” magos, herança das lendas epifânicas, nas quais os deuses se manifestam aos seres humanos. Mais adiante, mesmo após a futura e decisiva intervenção do imperador Constantino nessa questão, a Epifania continuou sendo festejada pelos cristãos orientais como sendo o dia do nascimento de Jesus. A Igreja Ortodoxa armênia, mesmo atualmente, comemora o “natal” nesse dia.

É importante esclarecer que as escolhas das datas não foram aleatórias. Ambas rivalizavam com festas pagãs realizadas no mesmo período, como a da religião persa que celebrava o Natalis Invicti Solis, a do deus Mitra e outras decorrentes do solstício de inverno e dos cultos solares entre os celtas e germânicos. O 25 de dezembro foi uma conveniência para facilitar a assimilação da fé cristã pela massa de pagãos.

Não dá para dizer ao certo como eram os primeiros Natais cristãos, mas é fato que hábitos como a troca de presentes e as refeições suntuosas permaneceram. Ao longo da Idade Média, enquanto missionários espalhavam o cristianismo pela Europa, costumes de outros povos foram entrando para a tradição natalina. A que deixou um legado mais forte foi o Yule, a festa que os nórdicos faziam em homenagem ao solstício. O presunto da ceia, a decoração toda colorida das casas e a árvore de Natal vêm de lá. Só isso.

Outra contribuição do norte foi a idéia de um ser sobrenatural que dá presentes para as criancinhas durante o Yule. Em algumas tradições escandinavas, era (e ainda é) um gnomo quem cumpre esse papel. Mas essa figura logo ganharia traços mais humanos. Estava nascendo o “Papai Noel”.

Papai Noel

Ásia Menor, século 4. Três moças da cidade de Myra (onde hoje fica a Turquia) estavam na pior. O pai delas não tinha um gato para puxar pelo rabo, e as garotas só viam um jeito de sair da miséria: entrar para o ramo da prostituição. Foi então que, numa noite de inverno, um homem misterioso jogou um saquinho cheio de ouro pela janela (alguns dizem que foi pela chaminé) e sumiu. Na noite seguinte, atirou outro; depois, mais outro. Um para cada moça. Aí as meninas usaram o ouro como dotes de casamento – não dava para arranjar um bom marido na época sem pagar por isso. E viveram felizes para sempre, sem o fantasma de entrar para a vida, digamos, “profissional”. Tudo graças ao sujeito dos saquinhos. O nome dele? Papai Noel.

Bom, mais ou menos. O tal benfeitor era um homem de carne e osso conhecido como Nicolau de Myra, o bispo da cidade. Não existem registros históricos sobre a vida dele, mas lenda é o que não falta. Nicolau seria um ricaço que passou a vida dando presentes para os pobres. Histórias sobre a generosidade do bispo, como essa das moças que escaparam do bordel, ganharam status de mito. Logo atribuíram toda sorte de milagres a ele. E um século após sua morte, o bispo foi canonizado pela Igreja Católica. Virou são Nicolau.

Um santo multiuso: padroeiro das crianças, dos mercadores e dos marinheiros, que levaram sua fama de bonzinho para todos os cantos do Velho Continente. Na Rússia e na Grécia Nicolau virou o santo nº1, a Nossa Senhora Aparecida deles. No resto da Europa, a imagem benevolente do bispo de Myra se fundiu com as tradições do Natal. E ele virou o presenteador oficial da data. Na Grã-Bretanha, passaram a chamá-lo de Father Christmas (Papai Natal).

Os franceses cunharam Pére Nöel, que quer dizer a mesma coisa e deu origem ao nome que usamos aqui. Na Holanda, o santo Nicolau teve o nome encurtado para Sinterklaas. E o povo dos Países Baixos levou essa versão para a colônia holandesa de Nova Amsterdã (atual Nova York) no século 17 – daí o Santa Claus que os ianques adotariam depois. Assim o Natal que a gente conhece ia ganhando o mundo, mas nem todos gostaram da idéia.

Sua transformação em símbolo natalino aconteceu na Alemanha com o nome de Santa Claus. A figura do Papai Noel, como a conhecemos hoje, foi obra do cartunista americano Thomas Nast, que publicou seu cartum em 1881.

3 “Reis” Magos

Os evangelhos relatam que pessoas ilustres foram oferecer presentes ao recém-nascido. Afirmam também que eram ricos soberanos do Oriente. Mais uma vez a informação religiosa toma um caminho diferente da informação histórica. Mas podemos entender porque.

Naquela época, naquela região e naquele contexto, “mago” significava alguém vinculado a especialidades como astrologia e astronomia. Na época ambas as especialidades caminhavam juntas. Mas o fato é que até hoje ignora-se quantos estavam envolvidos com a história do nascimento.

O autor do evangelho de Mateus incluiu os magos em seu relato sobre a natividade porque os estrangeiros representariam a sabedoria do mundo, que se curvaria diante da criança-messias. Mas o autor do evangelho não precisou o número de magos. Como eles teriam oferecido à criança 3 presentes – ouro, incenso e mirra – a “tradição” concluiu que eram 3 magos, inclusive com a intenção de posteriormente relacionar esse número com o conceito da santíssima trindade.

Para o autor do evangelho de Mateus, a visita dos magos seria a realização de profecias sobre a homenagem prestada pelas nações pagãs ao deus de Israel. Em função dessas profecias e de outras do antigo testamento sobre a vinda do messias, esse evangelho viria a ser alterado diversas vezes pelos vários concílios que a igreja faria. Um dos exemplos dessas alterações posteriores foi a inclusão do termo “reis” ao magos. Uma alteração que teve como objetivo apenas intensificar a importância da chegada de Jesus à Terra.

Nessa transformação de magos em “reis” magos, a “tradição” optou por torná-los símbolos das 3 nações oriundas dos filhos de Noé, ficando da seguinte forma: Melquior, o etíope, descendente de Cam; Baltasar, o semita, descendente de Sem e Gaspar, descendente de Jafé. Desta forma, os magos passaram a ser representados com traços dos 3 continentes então conhecidos: árabe, para a Ásia; negro, para a África e branco, para a Europa.

Roni Adame

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