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Tag Archives: Paulo de Tarso


luz_montanha

Ano 30, em algum lugar do jardim situado ao pé do Monte das Oliveiras, no vale do Cédron, em meio à madrugada…

Jesus, experiente teórico e praticante de filosofias orientais, aproveita o sono da maioria e afasta-se um pouco dos grupos que o acompanham para uma de suas habituais meditações.

Poucos minutos se passam e uma sensação composta de medo e alerta  tira Jesus de seu estado meditativo. Os animais silenciam. O vento cessa. Gradualmente Jesus é inundado por uma claridade sem origem perceptível. Apesar do inevitável temor, Jesus já relativamente familiarizado com tudo aquilo, consegue se acalmar e simplesmente aguarda.

“Saudações Emmanuel”…

Jesus, ajoelhado, em sinal de respeito e reverência ao dono daquela “voz”, simplesmente faz um leve movimento com a cabeça.

O “gigante”, velho conhecido de Jesus, direciona seu olhar quase felino para os olhos de Jesus e prossegue…

“Nada no universo é capaz de escapar de esquivar-se da relação de causa e efeito. Você, ao saber disso, sabe também que suas provocações em breve o alcançarão tão ou mais intensamente que o teor das mesmas”.

Jesus, expressando muita seriedade, voltou a consentir em silêncio.

“Estivemos observando o plano de alguns de seus companheiros e aliados. Apesar de apresentar um altíssimo grau de risco, concluímos que existe margem para que funcione e, portanto, talvez você sobreviva. Na medida do possível, tentaremos ajudá-los”.

Jesus desta vez rompe o silêncio e responde:

“Se eu sobreviver, quando me recuperar, terei que voltar ao oriente. Não sei se voltarei a vê-los nesta condição. Portanto, aproveito para expressar minha gratidão a todos vocês por terem estado presente até este momento”.

Coube ao “gigante” um gesto silencioso de profundo respeito para com Jesus. Mas logo o silêncio é rompido novamente…

“Emmanuel, o plano de seus companheiros foi cuidadosamente formulado de modo com que você venha a sobreviver. Uma vez bem sucedido, é possível que alguns fatos futuros se concretizem como consequência do sucesso desse plano. Fatos esses que estarão fora do alcance de nosso controle e que terão um impacto jamais imaginado por você na sua condição atual”.

“Concluímos ser de extrema importância informá-lo a respeito de tais fatos para que você possa refletir e analisar se realmente deseja levar o plano adiante. Mas caberá a você decidir se deseja ou não conhecer tais fatos”.

Jesus hesita e fica em silêncio por alguns minutos. O que o “gigante” quis dizer com “impacto jamais imaginado”? Parecia importante demais para Jesus ignorar. E, desta forma, e um pouco receoso, Jesus decide conhecer tais fatos…

“O principal fato responsável pelos eventos futuros será a sua sobrevivência ao que está por vir. Apesar de você não ter sido o primeiro a sobreviver a uma sentença de morte romana, suas palavras e atitudes em meio às pessoas comuns, ganharam peso para as autoridades locais e isso é um diferencial perante os sobreviventes anteriores”.

“Apesar de você sempre ter dito a ela, a seus irmãos e aos seus companheiros mais próximos que você não era o messias libertador das profecias, a maioria deles não desistirão dessa idéia tão facilmente e este fato, aliado aos anteriores, também será decisivo para que a futura criação de um personagem impactante”.

“Parte dos diferentes grupos que o acompanham será procurada e, em nome da sobrevivência, acabarão formando novos grupos que, com o tempo, passarão a gerar novas crenças e filosofias, inevitavelmente fundindo seus paradigmas culturais e religiosos com atitudes, gestos e palavras, pouco ou nada compreendidas, as quais testemunharam durante o tempo em que o acompanharam, Inclusive, sua sobrevivência à pena de morte romana passa a ser chamada de ressureição. Você teria de fato morrido e voltado do mundo dos mortos”.

“Vários desses grupos, isolados, com dificuldades de auto-sustentação, passarão a tomar todos os bens materiais de seus adeptos, justificando tal atitude ao anunciar que não precisarão de mais nada deste mundo, visto que logo você retornará para guiá-los novamente ao reino de seu pai.”

“Com a não concretização de seu retorno, o descontrole se torna inevitável. Em função disso surgem as primeiras hierarquias dentro desses grupos, vindo a ser os primeiros passos de geração de poder, ao mesmo tempo que esse poder estará cada vez mais vinculado à sua representação”.

“Tais grupos se dividem e se espalham cada vez mais, diversificando ainda mais crenças, pensamentos e filosofias que justifiquem suas existências. Neste ponto, apesar de tentativas futuras, o controle passa ser impossível.”

“Após vários anos de sua suposta ressureição, um dos perseguidores desses grupos, em meio a uma crise pessoal, muda sua postura, dizendo a todos que você apareceu a ele pedindo que passasse a ser seu discípulo e que levasse sua palavra a todos, sem exceção. Esse homem, devido à sua condição intelectual diferenciada, e à sua formação grega e judaica, tem uma nova idéia. Ele resolve vincular você a um velho personagem grego denominado Crestus. Tal personagem era ungido com o espírito de um ser superior único e magnânimo, criador de tudo o que existe. A partir desse momento você passa a ser o Crestus, ou o Cristo, um ser humano que recebeu o espírito de Deus. Um deus encarnado”.

“Enquanto um deus encarnado, sua morte passa a ter um propósito. Afinal, as pessoas perguntariam por que um deus teria se feito homem. Cristo daria sua vida, por amor, para livrar todos os homens de seus pecados. E você, tendo desaparecido, ou subido aos céus, continuaria a livrar os homens de seus pecados, desde que esses homens prometessem lealdade a você. Essa fórmula seria derradeira e devastadora no intuito de conseguir novos adeptos por parte do homem que o transformou em Cristo. Ela seria responsável pela criação de uma nova religião, que viria a se espalhar por uma grande parte do planeta: o Cristianismo”.

“Mesmo você jamais tendo registrado qualquer uma de suas palavras, uma infinidade de palavras são atribuídas a você. O que você teria dito e feito se tornariam palavras agrupadas em muitos livros e depois selecionadas de forma a servirem de método de controle e de eliminação de grupos cristãos distintos. A igreja, entidade centralizadora do Cristianismo, passa a usar suas supostas palavras para eliminar quem não as aceita”.

“Você se tornará o próprio Deus. E muitíssimas batalhas serão travadas em seu nome. Nenhuma guerra jamais superaria tantas mortes quanto as causadas em seu nome. Todos os que virrão a se enfrentar morrerão convictos que estarão matando para você e também de que você os acolherá após suas mortes no reino dos céus para que possam viver para sempre”.

Nesse momento o corpo de Jesus reage de forma intensa. O estresse chega a níveis muito acima do suportado normalmente por um ser humano. E seus poros e glândulas sudoríferas são inundados por sangue.

O “gigante” se aproxima ainda mais de Jesus e passa a acalmá-lo gradualmente. Jesus logo deixa de suar sangue. O “gigante” aguarda pacientemente seu restabelecimento. Jesus dá o aviso que está tudo sob controle…

“Pai, obrigado. Ao menos meu corpo está bem”.

O “gigante” volta a questioná-lo…

“Emmanuel, ao saber que esses fatos podem de fato se concretizarem, você seguirá com o plano adiante”?

Jesus não demora a responder…

“Não posso suportar tal idéia. Como concordar com a morte de todas essas pessoas? Como concordar em ser um Deus? Como posso concordar na transformação de um judeu nesse tal Cristo que livra os homens de seus pecados? Eu nem mesmo sei o que é isso. Como isso tudo foi acontecer? Eu não posso concordar. Não levarei o plano adiante. Não posso sobreviver de forma alguma. Pai, obrigado por me falar sobre tais coisas. Devo avisar a meus companheiros para abandorem o plano e que estou por conta própria. Creio que não nos veremos mais. Não nesta condição…”.

Jesus então sai em direção ao grupo mais próximo. Nesse momento o “gigante” interrompe seus planos. Jesus perde a consciência por alguns instantes. Ao acordar, estranha o fato de ter dormido durante sua meditação e se levanta sem qualquer lembrança do ocorrido e sem uma gota de sangue sequer sobre sua pele. Ao se aproximar do grupo mais próximo, uma jovem lhe pergunta..

“Rabí, o que houve? Judas já retornou com os guardas? Devemos seguir com os planos?

Jesus, expressando um tom bem mais sério que o normal, acalma a jovem…

“Minha querida, por que mudaríamos os planos? Vamos seguir com o planejado e esperar que todos nós possamos sobreviver”…

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